REVISÃO – LEPTOSPIROSE

Fevereiro 29, 2008

Etiologia

As leptospiras patogênicas pertencem a espécie Leptospira interrogans que apresenta mais de 212 sorovares, agrupados em 23 sorogrupos. As leptospiras na maioria dos casos, são assintomáticos mas ocasionalmente, causam diversos quadros clínicos.

            Em todas as espécies, após um intervalo de bacteremia, os microrganismos parasitam os rins, em que se multiplicam no lúmem dos túbulos contaminados proximais e são excretados na urina, em que consiste o principal meio de transmissão e causa uma nefrite aguda ou crônica. As leptospiras podem permanecer viáveis nas áreas úmidas durante longos períodos. Elas são aeróbicas podendo ser cultivadas em meios contendo sais inorgânicos, tamponados com fosfato.

 

Patogênese

A partir de água de lagoa ou riachos de fluxo lento, a L .interrogans pode penetrar na pele com lesões ou integra; a partir desta mesma água se for utilizada para bebida ou por qualquer fonte contaminada por urina, pode penetrar pela mucosa digestiva ou nasal. Finalmente pode haver infecção direta por urina dos doentes ou portadores, e a mucosa conjuntival é considerada como possível via de infecção, sendo muito receptivo experimentalmente.

            Ingressando na mucosa após incubação de 2 a 5 dias, a leptospira alcança o sangue e se multiplica muito ativamente nele e em vários órgãos, ingressando nas células principalmente no fígado, baço e rims por ter enzimas que permeam as membranas celulares. A leptospiremia dura em geral 2 a 3 dias, gerando fase febril discreta e já no quarto dia haverá leptospiras nos rims. Durante essa fase ocorre destruição de hemácias com o estabelecimento de discreta anemia.

 

Patologia

Na necropsia tem-se relatado: anemia, as vezes icterícia, petéquias e sufusões sub-serosas e sub-mucosas, esplenomegalia, aumento de volume hepático e áreas amareladas irregulares; rims congestos, aumentados de volume com hemorragias corticais em casos mais recentes, e com focos necróticos acinzentados quando período de estagio passou de 7 a 10 dias, porém sem aderência de cápsula renal, que quando ocorre é mais tardia, os linfonodos costumam estar aumentados e edematosos.

             Histologicamente há desarranjo das muralhas hepáticas com hepatite serosa, necroses focais, infiltração por neutrófilos e linfócitos, hemociderose com captura da hemociderina pelo reticulo endotélio dos sinusóides. Nos rims inicialmente há congestão glomerular, depois aderência entre o folheto visceral e parietal da cápsula de Bowman.

 

Sinais Clínicos

    Geralmente a doença passa desapercebida por criadores de bovinos e suínos, porém alguns casos mais graves experimentalmente , observa-se temperatura de 40 a 41 graus por três a sete dias (fase de leptospiremia) acompanhada de anorexia, depressão, discreta diarréia, e as vezes hemoglobinúria, paresia ou paralisia do rúmen. Mais tarde poderá haver aborto, algumas vacas apresenta leite espesso amarelado, as vezes com sangue e a seguir diminuição de 80% ou mais do volume, retornando a produção ao normal em 10 a 15 dias.

        Nos bezerros ha letargia, febre, anorexia, discreta anemia. Alguns animais apresentam rigidez dos membros posteriores. Icterícia é sinal muito raro. Ao cair a temperatura , os animais afetados voltam ao normal, porém seu crescimento será retardado em relação aos que não sofreram a doença. Geralmente quando começam os abortos praticamente não haverá mais leptospirose sintomática, porém alguns animais ainda poderão estar com leptospiruria.

Em carneiros e cabras poderá haver febre e anorexia por alguns dias e nada mais.Nessas espécies praticamente não tem-se verificado aborto por leptospira.

Há relatos de vários autores de uveíte recorrente unilateral ou bilateral, causados pelos sorovares L. autummaleis e L. pomona. Essas lesões com uveíte e irite, acompanhadas ou não por sinéquias posteriores, catarata, edema corneal progressivo com perda da visão.

 

Diagnóstico

Através de exames complementares laboratoriais, podem se chegar ao diagnóstico da doença. Há três métodos que poderão confirmar a doença:

1 colheita de sangue heparizado e urina, para exame a campo escuro ou fase; o sangue é examinado a fresco entre lâmina e lamínula; a urina é submetida a exame direto e após enriquecimento por centrifugação a 5 mil rpms por meia hora, decantado e examinado o sedimento.

2 Isolamento do agente em meio bacteriológico como o de Fletcher, ou por inoculação em cobaias

3 Sorologia, usando método de aglutinação em placa, de aglutinação-lise microscopia, de aglutinação em capilar e de fixação do complemento, colhendo soros pareados, intervalos de 15 a 20 dias, que em presença de doença ativa ou recente darão 4 vezes mais anticorpos na segunda amostra. Títulos à soro aglutinação entra 200 e 1600 são comuns em animais doentes e caem a menos de 200 em períodos de um ano.

 

Tratamento

É bastante eficiente, já que o agente é muito sensível a estreptomicina e terramicina. Costumamos fazer uma dose de penicilina benzatina associada a estreptomicina, respectivamente 10.000 U.I. e 5 mg/kg, via IM, concomitantemente, fazemos terramicina 10mg/kg por dia, durante 10 a 15 dias, no intuito de não deixar portadores.

 

Prognóstico

Em casos crônicos é mau, nos estágios iniciais da doença é bom pois a doença costuma ser extremamente benigna exceto pelos casos que ocorram em neonatos e pelos abortos (que causam prejuízo).

 

Profilaxia

Tratar possíveis portadores inaparentes, o que pode representar todo o rebanho; eliminar todas as fontes possíveis de infecção, como poças nas instalações e bebedouros, riachos e lagoas; impedir acesso dos animais e drenar essas áreas; finalmente combater possíveis reservatórios silvestres, como ratos, morcegos, gambás e outros. Utiliza-se vacinações anuais.

 

Diagnóstico Diferencial

  • Brucelose
  • Campilobacteriose
  • Herpes vírus bovino
  • Intoxicação por cobre
  • Diarréia viral bovina
  • Toricomoníase

 

Referências bibliográficas

  • RIET-CORREA, FRANKLIM-A. LEMOS; RICARDO Antonio, Doenças dos Ruminantes e Eqüinos, 1 edição, editora Varela, Ano 2001
  • CORREA, WALTER MAURILIO; CORRÊA, Célia N. Maurício, Enfermidades Infecciosas dos Mamíferos Domésticos, 2 edição, editora Médica e Cientifica ltda – MEDSI, ano 1992, pg 219-225

Texto redigido por Rudiard Nardelli, Médico Veterinário.

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